segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Batalha antidroga na volta às aulas


No reinício do ano letivo, preocupação com uso de entorpecentes é discutida em semanas pedagógicas de todo o estado
Professores de todo o estado participam no início do ano de uma semana pedagógica e, mesmo com a infinidade de assuntos trabalhados, há um tema que está em quase todas as pautas das escolas paranaenses: as drogas. Com o recomeço das atividades letivas, o problema volta à tona para os 2 milhões de estudantes que retornam à sala de aula. E os docentes, mais uma vez, se veem no meio de uma questão que a escola é, muitas vezes, obrigada a tentar resolver sozinha.
Este vilão atinge tanto instituições privadas quanto particulares. E, apesar da formação que há sobre a temática, falta trabalho em rede. Quando os profissionais da educação identificam o problema, não encontram políticas públicas para dar sequência ao trabalho. E, na hora da prevenção, também agem sozinhos.
Para se ter uma ideia do tamanho do problema, em seis anos foram 5.598 denúncias feitas ao 181 Narcodenúncia, serviço do governo estadual para combate ao tráfico de drogas, envolvendo crianças e adolescentes do sexo masculino. O número é maior do que as denúncias relacionadas a mulheres adultas. E a violência e uso de drogas se refletem dentro da sala de aula.
Em Foz do Iguaçu, que amarga o primeiro lugar no ranking do Índice de Homicídios na Ado­lescência (IHA), criado pelo Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef), a violência tem relação profunda com as drogas. Lá, a pedagoga Bernadete Sidor trabalha com a questão das drogas na escola há mais de duas décadas. E faz um alerta: nos últimos anos, a situação ficou mais crítica. Se antes havia um caso por mês de aluno com problemas, hoje é quase um por dia. “Todos os locais são vulneráveis, mas aqui o acesso a drogas e armas é mais fácil”.
Lecionando sempre em escolas públicas, ela sente falta de políticas que possam dar se quência ao trabalho iniciado pela equipe pedagógica. “Quan do um aluno vem conversar conosco ou o professor nota um comportamento diferente, muitas vezes ficamos sem apoio. Vamos com nossos carros particulares até a casa das famílias para conversar e faltam locais para tratamento”.
Bernadete afirma que já houve dias em que estudantes chegaram a ir dopados para a escola. Para ela, o principal trabalhos dos docentes é apoiar os jovens neste momento. “Eles precisam saber que há uma pessoa de referência em quem podem confiar”. Foi com esta perseverança que ela conseguiu mudar a realidade de um aluno de 17 anos que repetiu seis vezes a 5.ª série. “Iniciamos um trabalho para que ele escrevesse as histórias que já tinha vivido. Com isso, conseguimos estimular sua inteligência e melhorar a autoestima. Ele passou de ano e continua estudando”.
Desafio
Embora não viva a realidade da escola pública, a professora de Geografia Cibele Cruz já auxiliou muitos alunos. Ela também já foi voluntária em um colégio da periferia de Curitiba e diz que nestes espaços os desafios são maiores porque envolvem problemas estruturais. Hoje ela leciona no Colégio Dom Bosco e diz que consegue levar a temática da prevenção ao uso de drogas para suas aulas. Entre as discussões sobre a influência do narcotráfico na pobreza e na favelização das cidades, ela já foi surpreendida diversas por alunos que admitiram o uso de alguma substância e pediram ajuda. “Sinto que neste momento eles não precisam de um amigo, mas sim de alguém em quem confiem para ouvir o limite e escutar que tem alguém apoiando.”
Cibele diz que em muitos casos os pais trabalham e se esforçam para dar boas condições materiais aos filhos, mas acabam deixando o diálogo de lado. Há ex-alunos que até hoje procuram-na no dia dos professores para agradecer o papel de mediadora entre os pais e os filhos. “Um menino voltou depois de um ano de tratamento para agradecer o fato de a escola não ter desistido dele." 

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